Tipos de curativos: qual usar em cada ferida
Saúde

Tipos de curativos: qual usar em cada ferida

Escolher o curativo errado pode comprometer a cicatrização e aumentar o risco de infecção. Neste guia, você aprende quais coberturas usar em cada tipo de ferida, com base em evidências e na realidade do cuidado domiciliar brasileiro. Do curativo simples às coberturas especiais: tudo o que você precisa saber em um só lugar.

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Equipe INTEC

Equipe Editorial · 03 de abr. de 2026

7 min de leitura
Tipos de curativos: qual usar em cada ferida | Blog INTEC
Categoria: Saúde | Por: Equipe INTEC

Tipos de curativos: qual usar em cada ferida

Um guia prático e completo para técnicos de enfermagem e profissionais de saúde domiciliar que precisam tomar decisões seguras no dia a dia

Quem trabalha na linha de frente da saúde sabe: a escolha certa do curativo pode ser a diferença entre uma ferida que cicatriza em dias e uma que evolui para uma infecção grave. No ambiente domiciliar, essa decisão recai muitas vezes sobre o técnico de enfermagem, que precisa agir com autonomia, segurança e embasamento técnico — muitas vezes longe de um supervisor imediato.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, as lesões de pele representam um dos motivos mais frequentes de atendimento domiciliar pelo Programa Melhor em Casa, que em 2022 registrou mais de 180 mil pacientes ativos em todo o país. Úlceras por pressão, feridas cirúrgicas, lesões diabéticas e feridas crônicas compõem boa parte dessa demanda — e cada uma exige um tipo diferente de cobertura.

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Este guia foi criado pela equipe INTEC para ser a referência que você vai querer ter à mão toda vez que se deparar com uma ferida e precisar decidir: qual curativo usar agora?

⚠️ Aviso importante: O conteúdo deste artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Ele não substitui a avaliação clínica de um profissional habilitado nem a prescrição médica ou de enfermeiro. Sempre siga os protocolos da instituição onde você atua e acione o enfermeiro responsável diante de dúvidas clínicas.

O que é um curativo e qual é a sua função real?

O curativo é qualquer cobertura aplicada sobre uma ferida com o objetivo de proteger, promover cicatrização e prevenir infecção. Mas a função vai muito além de "tapar o machucado". Um curativo bem escolhido deve:

  • Manter o ambiente úmido ideal para a cicatrização (conforme preconiza a teoria do ambiente úmido de Winter, adotada mundialmente desde a década de 1960);
  • Absorver o excesso de exsudato sem desidratar o leito da ferida;
  • Proteger contra contaminação externa e microrganismos;
  • Não aderir ao tecido neoformado, evitando trauma na troca;
  • Ser confortável para o paciente, especialmente no ambiente domiciliar.

Escolher errado pode atrasar a cicatrização, macerar a pele perilesional, causar dor desnecessária ou, em casos graves, contribuir para sepse. Por isso, o conhecimento técnico aqui é inegociável.

Como avaliar uma ferida antes de escolher o curativo

Antes de abrir qualquer embalagem, avalie. A avaliação sistematizada da ferida é o passo número um — e muitas vezes é negligenciado na pressa do atendimento domiciliar. Observe:

1. Localização e tipo de ferida

Uma ferida no calcâneo de um paciente diabético tem manejo completamente diferente de uma abrasão no joelho de uma criança. Identifique se é aguda (traumática, cirúrgica) ou crônica (úlcera venosa, úlcera por pressão, pé diabético).

2. Fase da cicatrização

  • Fase inflamatória: primeiras 72h, presença de edema, calor e eritema fisiológico;
  • Fase proliferativa: formação de tecido de granulação (vermelho vivo, úmido);
  • Fase de remodelação: fechamento progressivo, formação de cicatriz.

3. Característica do leito da ferida

Use a classificação do TIME (Tissue, Infection, Moisture, Edge), amplamente adotada no Brasil:

  • T (Tecido): granulação, esfacelo amarelado, necrose preta seca ou úmida;
  • I (Infecção/Inflamação): sinais clínicos de infecção local ou sistêmica;
  • M (Umidade): ausência, pouco exsudato, moderado ou abundante;
  • E (Epitelização/Bordas): bordas avançando, estagnadas ou retraídas.

4. Pele perilesional

Maceração, eritema, descamação ou friabilidade ao redor da ferida indicam que o curativo atual (ou a ausência dele) não está adequado.

Tipos de curativos: guia completo por indicação

A seguir, apresentamos os principais tipos de curativos disponíveis no Brasil com suas indicações, contraindicações e pontos de atenção para o profissional domiciliar.

1. Gaze simples com solução salina (SF 0,9%)

O que é: cobertura tradicional de tecido de algodão não tecido, umedecida com soro fisiológico.

Quando usar: feridas limpas em fase inicial, curativos de limpeza, situações onde não há cobertura especializada disponível.

Atenção: a gaze úmida seca rapidamente, aderindo ao leito da ferida e causando trauma na troca. Seu uso em feridas crônicas é cada vez mais contraindicado pelos protocolos do Ministério da Saúde.

Frequência de troca: a cada 8–12 horas ou conforme saturação.

2. Filme transparente (poliuretano)

O que é: membrana semipermeável, transparente, autoadesiva.

Quando usar: feridas superficiais com pouco ou nenhum exsudato, proteção de áreas de risco (proeminências ósseas), fixação de curativos secundários e cateter venoso.

Contraindicações: feridas infectadas, exsudato moderado a alto (causa maceração), pele frágil ou com alergia ao adesivo.

Frequência de troca: a cada 3–7 dias ou quando houver vazamento.

3. Hidrocoloide

O que é: cobertura composta por carboximetilcelulose sódica que, em contato com o exsudato, forma um gel gelatinoso e mantém o ambiente úmido.

Quando usar: úlceras por pressão grau I e II, feridas com esfacelo leve a moderado, abrasões, feridas com baixo a moderado exsudato.

Contraindicações: feridas infectadas, exsudato abundante, feridas com necrose seca extensa.

Ponto de atenção: o gel formado pode ser confundido com pus por cuidadores leigos — oriente sempre a família sobre esse aspecto antes de sair do domicílio.

Frequência de troca: a cada 3–7 dias.

4. Alginato de cálcio

O que é: fibra derivada de algas marinhas com alta capacidade absortiva e hemostática.

Quando usar: feridas com exsudato moderado a alto, cavidades, feridas com sangramento discreto, pé diabético com exsudação.

Contraindicações: feridas secas ou com pouco exsudato (pode desidratar o leito), feridas com necrose seca.

Frequência de troca: a cada 1–3 dias, conforme saturação.

5. Espuma de poliuretano (foam)

O que é: cobertura altamente absortiva, macia, com ou sem borda adesiva.

Quando usar: feridas com exsudato moderado a alto, úlceras por pressão em fases II e III, cuidados com traqueostomia, feridas cavitárias (versão em cordão).

Vantagem no domicílio: permanece por mais dias sem precisar de troca, reduz custo e trauma para o paciente.

Frequência de troca: a cada 3–5 dias ou quando saturado.

6. Hidrogel

O que é: gel à base de água (90–95%) que hidrata e amolece tecidos desvitalizados.

Quando usar: feridas com necrose seca (escara preta), esfacelo aderido, feridas ressecadas, desbridamento autolítico.

Contraindicações: feridas infectadas sem controle, feridas com exsudato abundante.

Frequência de troca: a cada 1–3 dias.

7. Coberturas com prata (antimicrobianas)

O que é: coberturas impregnadas com prata iônica ou nanocristalina, com ação antimicrobiana de amplo espectro.

Quando usar: feridas com sinais de infecção local (odor, exsudato purulento, calor, dor aumentada), feridas colonizadas criticamente, pé diabético infectado.

Atenção: o uso prolongado sem reavaliação pode selecionar microrganismos resistentes. A prescrição deve ser do enfermeiro ou médico.

Frequência de troca: varia conforme o produto (1–7 dias).

8. Cobertura com mel (mel de Manuka ou mel medicinal)

O que é: cobertura com mel medicinal certificado (não mel de cozinha), com ação antimicrobiana e desbridante.

Quando usar: feridas com biofilme, feridas crônicas com colonização bacteriana, úlceras venosas e por pressão recalcitrantes.

Disponibilidade no Brasil: ainda com acesso restrito ao SUS, mais presente em serviços privados e especializados.

9. Curativo oclusivo com vaselina (tulle)

O que é: gaze impregnada com vaselina ou parafina, não aderente.

Quando usar: queimaduras superficiais, abrasões, áreas doadoras de enxerto, feridas com tecido de granulação delicado.

Frequência de troca: a cada 2–3 dias.

Curativos no contexto brasileiro: realidade do SUS e domicílio

Uma realidade que todo profissional de saúde domiciliar conhece: nem sempre o curativo ideal está disponível. Segundo o IBGE (PNAD Contínua Saúde 2019), cerca de 71,5% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS para seus cuidados de saúde. Isso significa que o profissional precisa conhecer tanto as coberturas de ponta quanto as alternativas dentro da realidade do sistema público.

O Ministério da Saúde, por meio do Protocolo de Úlcera por Pressão da ANVISA e dos protocolos do Programa Melhor em Casa, disponibiliza coberturas como hidrocoloide, alginato e espuma para pacientes elegíveis. Conheça a Remessa de Insumos do programa na sua região — muitas vezes há mais recursos disponíveis do que os profissionais sabem.

Dados do DATASUS (2023) indicam que úlceras por pressão representam um custo anual superior a R$ 2 bilhões ao sistema de saúde brasileiro, considerando internações, materiais e tratamentos prolongados. Curativos bem indicados são, portanto, economia real de recursos públicos e privados.

Passo a passo: como realizar um curativo domiciliar com segurança

  1. Higienize as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos ou use álcool 70%;
  2. Prepare o material antes de abrir o curativo anterior: SF 0,9%, cobertura escolhida, luvas de procedimento, bandagem ou fita adesiva;
  3. Use técnica asséptica: no domicílio, a técnica limpa é aceita para a maioria das feridas crônicas, mas feridas cirúrgicas recentes exigem técnica estéril;
  4. Remova o curativo anterior com cuidado: se aderido, umedeça com SF 0,9% antes de retirar;
  5. Limpe a ferida de dentro para fora com SF 0,9%, sem fricção excessiva em tecido de granulação;
  6. Avalie e registre: dimensões (largura × comprimento × profundidade), aspecto do leito, volume e características do exsudato, odor, condição da pele perilesional;
  7. Aplique a cobertura adequada conforme avaliação;
  8. Fixe com fita microporosa ou ataduras sem comprimir;
  9. Oriente o paciente e familiar sobre sinais de alerta e próxima troca;
  10. Registre em prontuário com data, hora, aspecto da ferida e cobertura utilizada.

🚨 Sinais de alerta: quando procurar ajuda médica imediatamente

Mesmo com o melhor curativo, algumas situações exigem avaliação médica urgente. Oriente o paciente, familiar e acione o serviço de saúde responsável se identificar:

  • Febre acima de 38°C associada à presença de ferida;
  • Vermelhidão, calor e inchaço progressivos ao redor da lesão (além do esperado na fase inflamatória normal);
  • Exsudato purulento com odor fétido intenso;
  • Estrias vermelhas (eritema em "listras") irradiando da ferida, indicativo de linfangite;
  • Tecido necrótico escuro e úmido com odor de gangrena;
  • Ferida que não mostra nenhum sinal de cicatrização após 2 semanas de tratamento correto;
  • Dor desproporcionalmente intensa ou piora súbita da dor em ferida crônica;
  • Paciente diabético ou imunossuprimido com qualquer sinal de infecção local — o limiar para acionar suporte deve ser muito baixo;
  • Confusão mental, hipotensão ou taquicardia em paciente com ferida — suspeita de sepse.

Lembre-se: como técnico de enfermagem no domicílio, você é muitas vezes o primeiro a identificar uma deterioração clínica. Sua observação atenta salva vidas. Em caso de dúvida, acione o enfermeiro supervisor ou o SAMU (192).

Erros comuns no curativo domiciliar (e como evitá-los)

  • Usar PVPI (povidona iodo) de rotina no leito da ferida: evidências atuais contraindicam o uso de antissépticos no leito da ferida, pois são citotóxicos para o tecido de granulação. Use SF 0,9% para limpeza;
  • Trocar o curativo com frequência excessiva: cada troca representa um microtrauma. Respeite o tempo indicado para cada cobertura;
  • Não registrar a evolução: sem registro, não há rastreabilidade e o próximo profissional não terá referência para comparação;
  • Ignorar a pele perilesional: maceração e dermatite ao redor da ferida comprometem a cicatrização tão quanto o leito da lesão;
  • Usar a mesma cobertura indefinidamente sem reavaliação: a ferida muda de fase — o curativo precisa acompanhar.

Tabela resumo: tipos de curativos e suas principais indicações

Cobertura Indicação principal Exsudato Troca
Gaze + SF 0,9% Feridas limpas agudas Baixo 8–12h
Filme transparente Superficiais, prevenção Nenhum/baixo 3–7 dias
Hidrocoloide UPP I-II, esfacelo leve Baixo/moderado 3–7 dias
Alginato de cálcio Cavidades, exsudato alto Moderado/alto 1–3 dias
Espuma (foam) UPP II-III, alta exsudação Moderado/alto 3–5 dias
Hidrogel Necrose seca, desbridamento Nenhum/baixo 1–3 dias
Prata iônica Feridas infectadas Variado 1–7 dias
Tulle (vaselina) Queimaduras, granulação Baixo/moderado 2–3 dias

Conclusão: conhecimento técnico é o melhor curativo

Após mais de duas décadas formando técnicos de enfermagem e profissionais de saúde, a equipe INTEC sabe de uma verdade que o dia a dia confirma: não é o curativo mais caro que faz a diferença, mas o profissional que sabe escolhê-lo com critério, avaliação clínica e responsabilidade.

O mercado de saúde domiciliar no Brasil cresce em ritmo acelerado — segundo a ABRAMGE, o setor cresceu mais de 25% entre 2020 e 2023, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela desospitalização. O IBGE projeta que o Brasil terá mais de 58 milhões de idosos até 2060, uma população que demanda cada vez mais cuidados domiciliares especializados. Os profissionais que dominam fundamentos como manejo de feridas terão espaço garantido nesse mercado.

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